23 de maio de 2015

Fiorucci


No meio de tantos afazeres, com a cabeça avoada amanheceu.
Ele em seu quarto como sempre amanhecia, as mesmas cortinas azuis sobrepostas a janelas impedindo a entrada da luz do sol pelas frestas. As mesmas roupas sujas jogadas pelo chão do quarto, e os mesmos lenções brancos bagunçados na cama como na noite passada. Porém algo tinha mudado.
Alguma coisa havia mudado, se transformado durante a noite.
"Mas o que?" pensou ele.
Fungou o ar forte, desvendando o mistério, o aroma tinha mudado. Sim, sem dúvida alguma era o cheiro daquele quarto a mudança. Ele fungou mais forte. Era cheiro de Fiorucci, doce e entorpecente. Dava até para ficar meio louco ao sentir aquele cheiro tão gostoso. Perfume de mulher.
Ele rolou na cama, ainda viajando naquele cheiro e se surpreendeu com os cachos ruivos de uma moça. Pobre ela, com o ombro nu naquele frio de fim de outono. Ele a cobriu. Em seguida afundou-se nos cabelos dela, cheiravam a shampoo. O que o fez lembrar de que tinha que comprar mais pra ele, mas tudo bem, ela não saberia da falta do shampoo, afinal ela ainda dormia, como um anjo ela dormia. Sorrindo. Parecia sonhar, e ele torcia para que fosse com ele. Torcia de verdade. Ele esperava que ela sonhasse com ele.
Porque ele a queria, ela era boa, de aparência, de conversa, de cama. Ele a queria muito. E se sentia idiota por isso, mas não era para menos. Ele afastou seus pensamentos tolos em relação a querer ela, com medo de que ela pudesse escutar os seus gritos mentais implorando por um pouco mais de Fiorucci em seu encalço. A verdade era que ele tinha certa vergonha com alguém ouvindo o que ele pensava, sempre teve isso, desde muito jovem. Era besteira, e ele sabia disso.
Ele levantou o tronco se apoiando com cotovelos no travesseiro querendo, agora, ver melhor aquela tal, ainda sim, estranha que dormia em sua cama. Ele viu a imagem nítida da menina ao seu lado, ela tinha um estilo indie rock, mesmo nua. Ela parecia ter sido esculpida para ele, se encaixariam perfeitamente. Ele sorria ao olha-la. Mas logo ele afastou seu olhar do corpo daquela garota que ele não se lembrava o nome. Irônico, não é? Tão linda, e sem um nome para que ele o guardasse na memoria. Mas ele estava de novo com medo, de se apaixonar agora.
Ela suspirou pesadamente e se espreguiçou sem abrir os olhos, com certeza ela teve boas horas de sono dividindo uma cama com ele. Ela abriu os olhos. E que lindo olhos, tão verdes e tão grandes. Ele a olhava de novo, encantado com o modo como ela se mexia, os olhos dela, encontraram os olhos dele. Sorriram.
"Bom dia" ela disse se levantando. "Bom" ele respondeu amargo, ainda tentando evitar um sentimento maior do que ele próprio poderia suprir. Ela nem percebeu sua amargura, olhou em seu relógio de pulso, e se assustou com a hora. Oras, o tempo é petulante, intrometido, desnecessário. Ela saltou da cama, juntando suas roupas do chão, e já as vestindo. Ela tinha que trabalhar. Depois de se vestir, de qualquer jeito, pegou sua bolsa. Ela estava um pouco descabelada, mas ainda linda aos olhos dele, deslumbrante.
Ela calçou seus sapatos por fim, e foi embora. Mas antes de partir, ela voltou. Até a porta do quarto e o olhou. Ele que agora encarava o teto, pensando em como fora idiota, de ter deixado ela ir, sem nem um beijo de despedida. Sem nenhum mimo para que ela se lembrasse dele. Ela pigarreou com a garganta, chamando a atenção dele. Ele se levantou em um salto, se sentando na cama. Ela ria dele. Ela sorria pra ele. Ela tinha o olhar apaixonado por ele.
Ele percebeu que estava sendo tolo, por medo de se apaixonar por ela. Os dois já estavam apaixonados. Ele estava aliviado agora. "Você vai me ligar?" ela perguntou, um pouco preocupada, mas tentando mostrar que não se importava, mas era ao contrário. Ela se importava. Ele balançou a cabeça, concordando. "Mesmo?" ela deixou escapar, deixando sua preocupação estampada na sua cara inocente. Ele não respondeu, e ela foi embora.
Enquanto ela andava apresada para o trabalho, torcendo para não levar uma bronca do seu chefe mal humorado, e nem tropeçar no meio da calçada, uma música começou a tocar. Uma de suas músicas favoritas. She Moves in Her Own Way, tocava dentro de sua bolsa. Mas oras, quem seria a essa hora a ligando? Só podia ser o seu chefe, mas não, era um numero desconhecido, e ela se lembrou dele. Dele da noite passada. Sorriu, e ansiosa atendeu. "Alô?" ela atendeu. "Eu disse que ligaria." a voz dele do outro lado da linha dizia, um pouco roca, por causa do sono. Ela sabia que ele estava sorrindo do outro lado e sorriu de volta como se ele pudesse vê-la e juntos desligaram o telefone.

4 comentários:

  1. Gostei do seu texto, ficou bem bacana.
    Seu blog é muito fofo *-*

    Beijos:*
    Dani - http://www.escritasnachuva.com/

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    1. Obrigada Dani de verdade. Fiquei muito feliz em saber que você gostou! <3

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  2. Que texto lindo e delicado.
    Conheci seu blog essa semana, e estou encantada.
    Parabéns.
    tecontopoesia.blogspot.com.br

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    1. Awn Camila, obrigada. Espero que você continue gostando dos próximos posts! <3

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